sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

We need to talk about Kevin (2011)

Ontem fui assistir ao último filme da mostra "Um Livro, Um Filme", do SESC Botafogo, que se propunha a exibir filmes baseados em livros, sucedidos por um debate informal com um jornalista, escritor ou poeta, e a platéia. Aproveitei para assistir "We need to talk about Kevin", que estava na minha lista de desejos desde que soube de sua nomeação pra Palma de Ouro em Cannes, e de brinde participei da discussão com Arnaldo Bloch, escritor e blogueiro do Globo.com, que foi ótimo por sinal, assim como o filme.
A premissa é extremamente intrigante: baseado no livro homônimo de Lionel Shriver, conta a história de uma mãe que tenta a todo custo entender o que levou seu filho adolescente a provocar uma chacina na escola em que frequenta, enquanto se esforça pra não enlouquecer frente ao ódio que restou em toda a cidade. Mas o que realmente me surpreendeu no filme foi a abordagem não convencional do assunto: pra começar, a ótica é sempre da mãe, uma atuação perfeita de Tilda Swinton, sem a menor pretensão de mostrar (ou teria sido escondido de propósito?) o que se passa na cabeça de Kevin (Ezra Miller), se ele é um
psicopata doente, uma mente maldosa ou só um adolescente carente de atenção, e sim como isso afeta sua progenitora. Isto posto, o filme poderia facilmente descambar para um drama moralizante exagerado, ou para um terror psicológico puro, mas não; por meio de uma trilha sonora composta basicamente de folk e country americano, totalmente dissonante da da tensão das cenas em geral, a diretora Lynne Ramsay compõe uma relação seca entre mãe e filho, que são mais parecidos do que são capazes de discernir, ou aceitar. Por exemplo, na cena em que Kevin atira em seus colegas, ao invés de gritos, ouvimos apenas o gospel "Mother's Last Word To Her Son", de Washington Phillips, em que os versos "You are leaving, my darling boy/ You always have been your mother's joy" antecipam a reação da
mãe ao descobrir no filho um assassino; embora não tivesse sequer certeza se o amava, ou se era amada por ele, ela passaria a ser sua única visita na prisão pelos próximos anos.
A estrutura é circular; acompanhamos a personagem de Tilda repassar mentalmente o assassinato inúmeras vezes, entremeado por cenas de um Kevin adolescente cruel e provocativo, abrandado por um Kevin criança ora doce e carente (principalmente com o pai), ora traquinas a ponto de ser maldoso. Isto nos leva a perguntar, assim como a mãe se pergunta a todo momento, quanto do assassino sempre esteve escondido dentro daquela criança, ou se ela teria o poder de pará-lo se tivesse interpretado suas intenções mais claramente. Enfim, um filme imperdível sobre como os pais nunca conhecem de verdade seus filhos , sejam eles crianças boas ou más, sobre tudo o que precisa ser dito mas permanece lacrado silenciosamente por um pacto tácito no seio da família. Fica a dica também do livro, de que ouvi falar muito bem no debate e que com certeza lerei em breve.

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