
Que tal falarmos de um filme que está em cartaz, pra variar? Digo isso porque a escolha de hoje vai para um filme que fala de magia, quase uma fábula. E filme que fale de magia tem que ser visto no cinema, concordam? Até moral encontramos nesta maravilhosa pérola do premiado diretor, escritor, roteirista, ator e expert em comportamento humano, Mr. Woody Allen. Como qualquer outro gênio cult, Woody sofre do estigma de ser citado em qualquer conversa de bar de esquina de Botafogo (RJ), e, embora haja quem prefira chamâ-lo de criador neurótico de diálogos chatos, eu fico com o encanto provocado pela universalidade de seus personagens, pessoas comuns com percepções comuns sobre o mundo, confrontando a si mesmos quando postos em situações extraordinárias. Na verdade, penso que essa seja a chave do sucesso de Woody. A forma como é fácil se identificar com seus personagens no plano mundano faz-nos imaginar como seria se deixar seduzir pela proposta que Woody Allen faz ao personagem. Foi assim com Vicky Cristina Barcelona ( o que você faria se um atraente pintor espanhol lhe convidasse para um final de semana de amor e vinho no meio de suas férias de verão na Espanha?), e foi ainda melhor em Meia Noite em Paris. Quando o roteirista aspirante a escritor Gil (Owen Wilson) se deparou com uma carro modelo 1920 e
m plena noite da Paris atual, o que ele fez? Pegou carona, oras! E assim tem-se início a viagem no tempo mais impressionante que se viu no cinema dos últimos anos. Longe de apresentar inadequação à era passada, Gil familiariza-se com grandes nomes das artes, como Dali ( Adrien Brody, im-pa-gá-vel), Hemingway (Corey Stoll), Gertrude Stein (Kathy Bates) e o espirituoso casal Fitzgerald (Tom Hiddleston e Alison Pill), mais conhecido pelos barracos familiares retratados em suas obras do que pela qualidade literária das mesmas. Mas quem mais impressionou o jovem roteirista é a dançarina Adriana (Marion Cotillard), que assim como o rapaz nutre uma nostálgica paixão pelos tempos passados, para ela o fim do século 20, la Belle Époque. Enquanto ele lhe fala que não poderia estar mais feliz vivendo nos anos 20, ela replica que nada se compara à boêmia dos anos idos da Paris de outrora. Taí a primeira lição de moral do filme: quando você reclamar que antes a vida era mais bonita, ou mais fácil, lembre-se que as pessoas que viveram na época que você tanto admira também fizeram as mesmas reclamações, então, que tal perder um pouco menos de tempo com isso da próxima vez e aproveitar um pouco mais o presente? A espontaneidade da paixão que surge entre Gil e Adriana, ponto forte desta comédia romântica, é um belíssimo contraponto à dissonância que rege seu relacionamento com a noiva Inez (Rachel McAdams), mais interessada em gastar pelas lojas ou badalar noite a fora do que aproveitar a companhia de seu futuro marido. Sem contar o seu odiável círculo íntimo, composto de pais e amigos que desprezam enfatica e repetidamente o desejo de Gil de sair da comodidade de seus roteiros bem-sucedidos para Hollywood, porém medíocres, e ingressar na aventura de publicar um romance de qualidade. Sobre isso, li um interessantímo artigo de Calligaris, reproduzido a torto e a direi
to pela internet. Antes que eu revele demais do filme e ele perca toda a graça, vou apenas falar do óbvio que não se cansa de ser dito: como é linda Paris! Seja nos anos 20 ou 2000, Woody Allen foi um mestre em captar nos melhores ângulos a cidade campeã em turistas da Europa. Suas cafeterias às margens do Sena ganham charme extra quando trespassadas pelo reflexo da luz dos postes retrô nas franjas dos vestidos melindrosos de suas garotas. Resumindo tudo o que foi dito, bons atores, boas locações, boa história. Qualquer semelhança com o modo como os bons filmes eram feitos antigamente não é mera coincidência. Sem mais, fica a dica.